A edição de abril de 2019, da revista Exame, traz o “Guia Exame de Diversidade”, onde, segunda a sua capa, destaca as 36 empresas de 13 setores com as melhores práticas em inclusão em desenvolvimento.
Esse artigo tem como intuito trazer uma opinião sincera sobre tal conteúdo. E também apresentando o que acredito que determinadas companhias destacadas nesse conteúdo fazem (ou não) para a diversidade LGBT+.
Vamos lá!
1º Ponto | O Jornalismo Reflete a Sociedade
O papel do jornalismo, em uma sociedade hoje dominada pela fake news, é trazer uma reflexão sobre as mudanças sociais deixando o leitor tirar as suas conclusões sobre determinado fato reportado.
Então quando a publicação traz tal capa, claro, ela demostra estar antenada com o que está rolando no nosso dia a dia. E tudo bem!
Que bom ter esse espaço em um veículo relevante para discutirmos como as empresas estão se posicionando a favor do respeito, da diversidade, da inclusão e, de certa forma, da justiça social.
O problema é sempre COMO tudo isso é reportado. Esse é sempre o X da questão, sabe…
A começar pelo editoral em que há o título “Por que a diversidade importa…”. >O clichê do clichê que todo mundo usa e já sabe de cor e salteado. Afinal, não é possível que você está fazendo um guia sobre diversidade e ainda tem que começar da falar a importância do tema em um título. Ué, mas isso já sabemos, né… Senão nem estaria sendo capa de tal publicação.
Ok, mas a reportagem quis explicar “o porquê”. E no editorial?
Um espaço que você tem, digamos, como “premium”, para levar ao leitor um conhecimento sobre algo, você só tem que falar “o porquê” a diversidade importa? Algo que já vai ser aprofundado e debatido, de novo, na reportagem principal, no tal guia.
[Prometi-me não pegar no pé do clichê porque, de certa forma, ele é importante para o clickbait editorial, não é? Ok, Exame… Sigamos!]
Por outro lado, a única coisa boa desse editorial é que, finalmente, se falou o óbvio: NENHUMA empresa, no Brasil, hoje, “por mais diversa” que ela seja, está longeeeeee de ser considerada diversa e inclusiva. Aliás, tenho até uma amiga consultora de diversidade em que ela diz que nenhuma empresa É diversa, pois isso é um trabalho que nunca para. Mas sim que ela ESTÁ SEMPRE TRABALHANDO em prol da diversidade e inclusão.
Entende…
Diversidade e inclusão não é um ponto de chegada, mas um caminho constante, conturbado, que nunca será uma linha reta porque vamos aprender e errar todos os dias uns com os outros. E vai fazer diferença, pessoa / empresa, quem não tiver medo de errar e pedir desculpas quando isso acontecer.
2º Ponto | O Bendito Ranking das “Melhores Empresas” que Trabalham com Diversidade
Eu, particularmente, não sou a favor de ranking porque, bem ou mal, sempre gera um competição entre pessoas e empresas. E nem adianta falar que não gera, pois gera sim!
E falo disso em todas as áreas, desde ranking para saber qual é a melhor padaria do meu bairro até esse de “melhores empresas com práticas em diversidade e inclusão”. Mas ok, fizeram um bendito ranking. Então vamos analisá-lo.
Bom, como você sabe, meu trabalho é só voltado ao universo LGBT+, mesmo acreditando que diversidade e inclusão é um conjunto de várias outras áreas, conectando várias diversidades.
O fato é que para você ser realmente boa em algo é preciso focar e aprofundar, então é isso que eu faço com o universo LGBT+.
Logo vamos analisar aqui o ranking das empresas com destaques em diversidade LGBT+. Conheço algumas ações da SAP Brasil e gosto bastante do posicionamento da empresa em relação às suas práticas voltada ao universo LGBT+. Acredito que realmente merece ter ganhado tal destaque.
Também sei de algumas atividades da DOW e da Accenture, mas nada que me chame a atenção. Se eu fosse fazer uma palestra e tivesse que destacar um trabalho em diversidade LGBT+, com certeza, iria falar sobre a atuação da SAP Brasil sem sequer tocar no nome das outras duas.
A meu ver, tem empresas com práticas em diversidade LGBT+ bem melhores do que as apresentadas na reportagem, como por exemplo, a IBM Brasil e também duas outras companhias que têm destaques nessa reportagem: a Avon e a Boticário.
O que me deixou bem impactada foi terem dado, de modo geral, o posto de primeirão, no ranking geral, ao Santander. Como cliente do mesmo, eu acho um péssimo banco, que oferece um serviço horrível e por um preço elevado. Enquanto uma cliente diversa, ele não me atende e não me oferece nada específico para mim. Mas tudo bem, quem perde é ele e não eu.
Outra coisa é que eu sei de uns casos de homofobia nada bacana que amigos passaram dentro desse banco ao serem colaboradores do mesmo. Posso até relevar isso com a seguinte frase: “jogo passado, de resultado passado, não ganha campeonato hoje”, né…
Mas, como disse acima, para a diversidade LGBT+, com certeza, existem empresas com práticas muito melhores do que o Santander, inclusive na área bancária, que é…
O Banco do Brasil, que além de terem feitos algumas ações de marketing para o público LGBT+ incríveis, antes da “onda de propaganda LGBT+”, uma pessoa trans esteve em um cargo de gerência antes de todo mundo pensar na empregabilidade trans.
Tudo bem, é um banco do governo e o guia contemplava empresas privadas. Sim, entendo!
O que eu quero dizer é para você não se prender com “as boas práticas” do Santander para LGBT+ porque não é bemmmm assim – ao meu ver, claro, né!
3º Ponto | Você Não Precisa se Identificar como LGBT+ e Aí… Como Trabalhamos?
Uma coisa que me deixou bem passada nessa reportagem exclusiva, voltado ao público LGBT+, foi esse trecho:
“Diferentemente dos outros três pilares abordados nessa publicação, cujos integrantes são identificados no censo demográfico, a diversidade sexual é um desafio para as empresas porque os funcionários não são obrigados a se declarar LGBT+”.
Primeiro ponto: ser LGBT+ é trabalhar 2 pilares (na verdade, 3).
O primeiro deles é a sua orientação sexual.
O segundo é sua identidade de gênero.
E se você entender um cadinho a mais sobre o universo LGBT+, talvez trabalhe também sobre a performance de gênero – onde as pessoas têm, de primeira vista, as atitudes mais preconceituosas e reforçam estereótipos contra nós, LGBT+.
Então comecei a ficar angustiada como a reportagem INTEIRA, quando tocava na questão LGBT+, que só se falava sobre orientação sexual. Ou seja, se a gente parar para pensar, fala-se tanto em inclusão de trans, mas a própria reportagem “descartou” tal comunidade a não tratar a identidade de gênero.
Eu sei que o povo de empresa (e, pelo visto, o do jornalismo também) tem uma dificuldade gigante em entender que equidade de gênero NÃO é só sobre homens e mulheres cisgêneros, como disse nesse meu artigo aqui.
Ou seja, querem dar espaço para pessoas trans, mas sequer sabem o que é identidade de gênero e que dentro do universo LGBT+ não é só sobre orientação sexual – ou melhor, como diz a reportagem, diversidade sexual.
O correto seria diversidade sexual e de gênero.
O fato é quando se fala em gênero parece que o mundo esquece do universo trans, né…
E para piorar a reportagem fala sobre a identidade de gênero do Facebook que permite a autodeclaração do seu gênero, mas ela mesma não fala sobre a mesma toda a vez que toca na palavra diversidade. Uai, gente…
Parece que o pessoal que escreveu a reportagem deixou o dicionário LGBT+ de lado e sequer entendeu por quem é formada a nossa comunidade colorida! É dose!
E para pior, tem uma fala, ao meu ver, bem crítica sobre o fim da discriminação e a falta de oportunidades para travestis e transsexuais, do Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT+.
O conteúdo dele é esse:
“O fim da discriminação está na agenda das empresas. O próximo passo é a promoção dos direitos”.
Não existe fim da discriminação assim como não existe o fim do preconceito – inclusive, isso é um debate intenso que poderíamos aprofundar, em um outro texto (quem sabe?), trazendo insights da neurociência e psicologia social.
Discriminação são práticas internas, logo podemos revê-las. Mas sempre haverá práticas discriminatórias, mesmo que sejam inconscientes, porque o seu time está sempre mudando, você sempre terá pessoas diferentes saindo e entrando na sua empresa.
Cada um tem as suas referências, visões de mundo, vivências e… Diversidade! Cada um traz algumas práticas discriminatórias e preconceituosas que vamos adquirindo ao longo da vida.
Logo teremos que treinar as pessoas, rever processos de diversidade e inclusão, trazer insights da sociedade e ver as suas mudanças para que possamos diminuir as práticas de discriminação internas e transformar as mentalidades das empresas / pessoas.
Se o fim da discriminação realmente existisse, então é era só treinar um time e pronto, né? Acabou o trampo de diversidade. Acabou o preconceito. Acabou os vieses inconscientes. Acabou a necessidade de palestras de diversidade.
E quem trabalha com diversidade e inclusão de maneira seríssima sabe que o trabalho NUNCA termina, mas sim é atualizado, é melhorado e é conectado com os movimentos que a sociedade / comunidade LGBT+ vai fazendo ao longo dos anos.
Em resumo: ao falar em o “fim da discriminação” é como querer construir um castelo de areia em uma praia que você sabe que vai receber ondas constantemente – ondas, que nem sempre queremos, mas que virão porque não podemos controlar a natureza, né?

Lembrando também que uma empresa é um reflexo da sociedade, você já viu acabar a discriminação social desde que o mundo é mundo?
Então por que vendemos essa ideia errada de que dentro de uma empresa, uma hora, vai acabar a discriminação?
Sério, tem horas que eu realmente não sei se as pessoas refletem sobre o que estão dizendo e como estão dizendo sobre diversidade e preconceito.
Querem vender um mundo encantado, um futuro mundo irreal, sem nos dar conta do que realmente precisamos:
Pés no chão, levantar da cadeira e suar a camisa para promover a mudança. E isso não acaba com a discriminação, mas faz com que empresas / pessoas sejam as suas melhores versões no mundo para a comunidade LGBT+.

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